O Estrangeiro é meu livro preferido no mundo. Ele está longe de ser o mais bem escrito de todos os tempos, o enredo não é o mais interessante da literatura e, por deus, os personagens não cativam nem de longe. Mesmo assim é meu livro preferido.
Alex Castro escreveu uma resenha bastante interessante e, pelo menos para mim, inovadora sobre o livro, vale a pena dar uma olhada clicando aqui. De acordo com esse resenhista, Meursault engana a todos nós, fazendo-nos passar para o lado dele injustamente. Pois bem, qualquer um que conheça minimamente o protagonista de O Estrangeiro sabe que isso é simplesmente impossível. Quer dizer, aquele personagem jamais convenceria ninguém a nada pelo mero fato de ser uma criatuva desprezível!
O que acontece então? Como um indivíduo tão insosso é capaz de convencer a maioria absoluta dos leitores da sua inocência(mesmo quando todos sabemos que ele é totalmente culpado do seu crime)?
Uma hipótese que poderia ser levantada é a de que as opiniões, se é que pode se falar em opiniões quando se refere a Meursault, do personagem são as mesmas do autor, e portanto esse apresenta toda a trama de forma a favorecer seu ponto de vista. Mas isso também não é verdade! O escritor argelino morreu tentando provar a existência do fato moral, enquanto a moral é uma questão completamente alienígena ao universo de O Estrangeiro.
Parece cada vez mais provável que não há nada intrínseco à obra que justifique a absolvição do protagonista. No fim das contas ninguém é enganado por Meursault ou pela narrativa camusiana.
É mais aceitável pensar que, a cada página, nos identificamos com ele. Sentimos o vazio de sua existência e reconhecemo-nos nesse vazio. Sabemos que não somos melhores do que ele e, em última instância, nos julgamos completamente inocentes, de forma que acusar Meursault nos obrigaria a assumir a nossa própria culpa.